jueves, 19 de abril de 2018

Spinoza



Seminário sobre as proposições 1 a 5 da parte III da Ética de Benedictus de Spinoza





O que são definições, axiomas, demonstrações, escólios e corolários?


Definições e Axiomas têm de ser claras, objetivas e apelam à intuição.


Demonstração: raciocínio que torna evidente o caráter verídico de uma proposição, ideia ou teoria


Escólios são breves anotações sobre algum texto com a finalidade de explicá-lo ou torná-lo mais claro.


Corolários são proposições que derivam, em um encadeamento dedutivo, de asserções precedentes, produzindo um acréscimo de conhecimento por meio da explicitação de aspectos que, no enunciado anterior, se mantinham latentes ou obscuros.


Cito Definições e Postulados


Prop. 1: “a nossa mente, algumas vezes, age; outras, na verdade, padece. Mais especificamente, à medida que tem ideias adequadas, ela necessariamente age; à medida que tem ideias inadequadas, ela necessariamente padece”





Primum: “entre as ideias de qualquer mente humana, algumas são adequadas, enquanto outras são mutiladas e confusas”





Autem: “”as ideias que são adequadas na mente de alguém são adequadas em Deus, enquanto este constitui a essência dessa mente”


“também aquelas que são INADEQUADAS na mente de alguém são adequadas em Deus, não enquanto Deus contém em si apenas a essência dessa mente, mas também enquanto contém, ao mesmo tempo, as mentes das outras coisas (aliarum rerum mentes)”





Deinde: “de uma ideia deve necessariamente seguir-se algum efeito, do qual Deus é a causa adequada, não enquanto é infinito,


mas enquanto é considerado como afetado dessa dada ideia





At: “desse efeito, do qual Deus é a causa, enquanto ele é afetado de uma ideia, que é adequada na mente de alguém, essa mesma mente é a causa adequada”





Ergo: “a nossa mente, à medida que tem ideias adequadas, necessariamente age”





Secundum: “de tudo que necessariamente se segue de uma ideia que é adequada em Deus, não enquanto ele contém apenas a mente de um homem, mas enquanto contém, ao mesmo tempo que a mente desse homem, as mentes das outras coisas (aliarum rerum mentes), a mente desse homem não é causa adequada, mas parcial.





Seminário:





“citar a prop. I”.





E cito a definição IV da parte 2 da Ética:


“Por idéia adequada compreendo uma idéia que, [...], tem todas as propriedades ou denominações intrínsecas de uma idéia verdadeira.”


Com propriedades intrínsecas ele exclui a propriedade extrínseca, que como ele explicar, “se refere à concordância da uma ideia com o seu ideado”





Demonstração:


Spinoza defende que as ideias adequadas em uma mente são também adequadas em Deus, ele explica isso no corolário da proposição 11 da parte 2, no qual afirma que a mente humana é parte do intelecto de Deus, e cito:


“Disso se segue que a mente humana é parte do intelecto infinito de Deus”


O Autor afirma ainda que as ideia inadequadas em uma mente são adequadas em Deus. E novamente remete-se ao corolário da proposição, no qual encontramos que Deus não constitui apenas a natureza da mente humana, porém sim também “tem ideia de outra coisa” (alterius rei etiam habet ideam).


E voltamos à demonstração:


“não enquanto Deus contém em si apenas a essência dessa mente, mas também enquanto contém, ao mesmo tempo, as mentes das outras coisas (aliarum rerum mentes)”


E para esclarecer a noção de mente das coisas, uso como referência um artigo chamado “a relação mente-corpo” de Paolo Cristofolini, traduzido na Revista Conatus:


“Agora, a mente de um objeto [...] não é constituída da ideia do seu corpo, mas é constituída da ideia que deste corpo há em Deus.”


“Visto que em Deus há o conceito de todas as coisas, todas as coisas são animadas em Deus.”


“ Deus, enquanto concebido sob o atributo da extensão, tem as ideias de todos os corpos, e enquanto concebido sob o atributo do pensamento tem as ideias de todas as mentes.


/ As nossas mentes são, como ideia, em Deus. /


Todos os objetos, todas as coisas, todos os indivíduos são parte de Deus enquanto natureza divina, enquanto infinita; este é o sentido spinozano da animação universal e da contribuição da mente a todas as coisas.”





A mente é causa adequada de uma ideia adequada enquanto esta afeta a Deus, sendo este sua causa. Dado que as ideias adequadas na mente humana são adequadas em deus.





De uma ideia sempre deve seguir-se um efeito, segundo o princípio de que não existe nada de que não se siga algum efeito - defendido na proposição 36. PQ td q existe exprime a potência de deus, q é a causa de todas as coisas.





E conclui, “logo, a nossa mente, à medida que tem ideias adequadas, necessariamente age”


A argumentação de Spinoza fica mais clara quando ele remete-se à Def. 2 segunda a qual “agimos quando - em nós ou fora de nós - sucede-se algo do qual somos causa adequada”.


Ou seja, nós agimos quando temos ideias adequadas, e nisso ele quer dizer, quando somos a causa adequada do que se passa em nós. E cito “quando da nossa natureza se segue algo que pode ser compreendido por ela”. Ou seja, quando determinamos por nós mesmos nossas próprias causas e razões. Apenas neste momento nós agimos.


Porém, Spinoza atribui as paixões às ideias inadequadas. Nesse sentido, “de tudo que necessariamente se segue de uma ideia que é adequada em Deus, não enquanto ele contém apenas a mente de um homem, mas enquanto contém, ao mesmo tempo que a mente desse homem, as mentes das outras coisas (aliarum rerum mentes), a mente desse homem não é causa adequada, mas parcial.”


Neste ponto ele volta a referenciar-se à def. 2, e dela eu cito:


“Padecemos: quando em nós sucede algo ou quando da nossa natureza se segue algo que não somos causa de não parcial”.


Creio que essa ideia ficará mais clara quando analisamos a Prop. 2 e seu respectivo escólio.





Fim do seminário da Prop. 1





Proposição 2: “nem o corpo pode determinar a mente a pensar, nam a mente determinar o corpo ao movimento ou ao repouso, ou a qualquer outro estado (se é que isso existe)”





Primum: todos os modos do pensar têm por causa Deus, enquanto ele é uma coisa pensante e não enquanto ele é explicado por um outro atributo. O que determina a mente a pensar é um modo do pensamento e não da extensão, isto é, não é um corpo.





Secundum: o movimento e o repouso do corpo devem provir de um outro corpo, o qual foi, igualmente, determinado ao movimento e ao repouso por outro,


em geral, tudo o que acontece a um corpo deve provir de Deus, enquanto ele é considerado como afetado de algum modo da extensão e não de algum modo do pensamento


isto é, não pode provir da mente, a qual é um modo do pensamento.





Ergo: nem o corpo pode determinar a mente.





Seminário da prop. 2





Citar “proposição 2”. Nesse momento o Spinoza desvincula as ações do corpo e as ações da mente, afirmando que estas não podem determinar umas às outras.


Ele argumenta que todos os modos de pensar têm como causa Deus, enquanto ele é uma coisa pensante por isso o que determina a mente é algo do âmbito de e cito “modus cogitandi est, et non extensionis”. Ou seja, Spinoza nos mostra que a mente é autônoma com relação ao corpo enquanto ela sempre é causada por Deus.


Em seguida, ele argumenta que o movimento de um corpo só é determinado pela ação de outro corpo neste, ou seja, pela relação com algo que é do âmbito da extensão e não do pensamento como é a mente.


Com esta demonstração Spinoza conclui que “nem a mente pode determinar o corpo, nem o corpo pode determinar a mente”


O escólio deixa mais claro o que isto quer dizer. Spinoza menciona o esc. da prop. 7 da parte 2 e cito “que a mente e o corpo são uma só e a mesma coisa, a qual é concebida ora sob o atributo do pensamento, ora sob o da extensão”


Sob este pretexto ele esclarece que as ações e paixões no corpo ocorrem simultaneamente às ações e paixões na alma.


Em seguida ele afirma: “ainda que essa argumentação não deixe margem para dúvida, acredito que, se não demonstrar isso por meio da experiência, os homens dificilmente se convencerão a examinar essas questões”





Nesse momento creio que fica mais ou menos claro o projeto de Spinoza, ele está alocando as paixões entre as ideias inadequadas. Assim, percebe-se que para o autor as paixões, tanto na mente quanto no corpo, elas diferenciam-se dos afetos porque estes são causados por nós mesmos e podem ser explicados apenas por nós mesmo, ou seja, destes somos causa suficiente. As paixões são aquilo que tanto na alma quanto no corpo são induzidos de fora, com causas exteriores às quais não podem ser explicadas por nós, ao menos não de maneira suficiente. Para Spinoza, as ideias adequadas são aquelas pelas quais agimos, e as inadequadas, as pelas quais padecemos.





Escólio, a Marilena Chauí diz que o escólio pode ser resumido em três proposições conflitantes:





“não sabemos tudo o que pode um corpo”


“o corpo movido pela arte de pensar da mente”


“a ilusão da liberdade da mente como liberdade da vontade”


“a mente sem poder sobre o corpo”


Ele inicia citando a Prop. 7 da Parte II


“que a mente e o corpo são uma só e mesma coisa, a qual é concebida ora sob o atributo do pensamento, ora sob o da extensão.”


Sob este pretexto ele esclarece que as ações e paixões no corpo ocorrem simultaneamente às ações e paixões na alma.





Em seguida ele afirma, e cito: “ainda que essa argumentação não deixe margem para dúvida, acredito que, se não demonstrar isso por meio da experiência, os homens dificilmente se convencerão a examinar essas questões”





“A ninguém até aqui a experiência ensinou o que o corpo fazer só pelas leis da natureza enquanto considerada apenas corpórea”


Exemplo:


- “os sonâmbulos fazem no sono muitíssimas coisas que não ousariam na vigília”.


Spinoza inicia uma espécie de exercício dialético com o adversário:


Dizem: “o corpo seria inerte caso a mente não fosse apta a pensar”


Mas: “se o corpo fosse inerte, a mente seria simultáneamente inepta a pensar” Exemplo: - “quando o corpo repousa no sono, a mente permanece adormecida junto com ele e não tem o poder de pensar, como em vigília”


Dirão: “que está só no poder da mente tanto falar quanto calar e muitas outras coisas”





“as coisas humanas dar-se-iam muito mais felizmente se nos homens estivesse igualmente o poder tanto de calar quanto de falar”


“a experiência ensina que os homens nada têm menos em seu poder do que a língua, e que nada podem menos do que moderar seus apetites”


“A bem da verdade, se não tivessem experimentado que fazemos muitas coisas das quais depois nos arrependemos, e que frequentemente, ao nos defrontarmos com afetos contrários, vemos o melhor e seguimos o pior, nada os impediria de crer que tudo fazemos livremente” “Assim o bebê crê apetecer livremente o leite, o menino irritado, querer vingança, e o medroso, a fuga” “Por sua vez, o embriagado crê falar por livre decreto da mente aquilo que depois de sóbrio preferiria ter calado”


“tudo isso mostra com clareza que tanto o decreto da mente quanto o apetite e a determinação do corpo são simultâneos por natureza, ou melhor, são uma só e a mesma coisa que, quando considerada sob o atributo do pensamento e por ele explicada, denominamos decreto e, quando considerada sob o atributo da extensão e deduzida das leis do movimento e do repouso, chamamos determinação”






Fim do seminário da prop. 2





Proposição 3: “as ações da mente provêm exclusivamente das ideias adequadas, enquanto as paixões dependem exclusivamente das ideias inadequadas”





Primum: o que constitui a essência da natureza humana não é senão a ideia de um corpo existente em ato, ideia que se compõe de muitas outras, algumas das quais são adequadas, enquanto outras são inadequadas.





Quicquid (portanto): cada coisa que se segue da natureza da mente, e da qual a mente é causa próxima, por meio da qual essa coisa tem que ser compreendida deve seguir-se ou de uma ideia adequada ou de uma ideia inadequada.





At (MAS): a mente enquanto tem ideias inadequadas, necessariamente padece.





Ergo: as ações da mente seguem-se exclusivamente das ideias adequadas e só padece, porque tem ideias inadequadas.





Seminário da prop. 3





A Marilena Chauí aborda a proposição no Vol. 2 de seu clássico Nervuras do Real. E cito:


“Espinoza parte da distinção entre a mente constituída pela ideia do seu corpo e composta de muitas outras ideias, conforme conheça, no primeiro caso, ou imagine, no segundo, as afecções corporais, isto é, as múltiplas relações do seu corpo com os demais corpos”


“Por isso, segue-se de sua natureza pensante que algumas dessas ideias sejam adequadas (sob a perspectiva da constituição, isto é, de um todo internamente disposto e auto-regulado) e outras, inadequadas (sob a perspectiva da composição, isto é, junção desordenada da multiplicidade externamente determinadas)”


A Nervura do Real, vol. II, p. 314


Com isso, mostro do texto spinozano:


“O que constitui a essência da natureza humana não é senão a ideia de um corpo existente em ato, ideia que se compõe de muitas outras, algumas das quais são adequadas, enquanto outras são inadequadas”





“Cada coisa que se segue da natureza da mente, e da qual a mente é causa próxima, por meio da qual essa coisa tem que ser compreendida deve seguir-se ou de uma ideia adequada ou de uma ideia inadequada. Mas a mente, enquanto tem idéias inadequadas, necessariamente padece. ”





E abordo a distinção ter e seguir na Chauí:


“O núcleo da demonstração é a distinção indicada pelo emprego dos verbos ter e seguir: embora paixão e ação sigam da natureza da mente, dela não seguem da mesma maneira quando a mente é apenas causa parcial do afeto - quando tem ideias inadequadas - e quanto é sua causa perfeita e completa - quando somente de sua natureza seguem ideias adequadas. Há, pois, afetos passivos e ativos.” A Nervura do Real, vol. II, p. 314





Fim do seminário da prop. 3





Proposição 4: Nenhuma coisa pode ser destruída senão por uma causa exterior.


Demonstração: Esta proposição é evidente por si mesma. Pois a definição de uma coisa qualquer afina a sua essência; ela não a nega. Ou seja, ela põe a sua essência; ela não a retira. Assim, à medida que consideramos apenas a própria coisa e não as causas exteriores, não poderemos encontrar nela nada que possa destruí-la.


Proposição 5: À medida que uma coisa pode destruir uma outra, elas são de natureza contrária, isto é, elas não podem estar no mesmo sujeito.


Demonstração: Com efeito, se elas estivessem de acordo entre si, ou seja, se pudessem estar simultaneamente no mesmo sujeito, então poderia haver no mesmo sujeito algo que poderia destruí-lo, o que (pela prop. prec.) é absurdo. Logo, à medida que uma coisa, etc. C. Q.D


Seminário da props. 4 e 5





A própria Chauí diz que a ideia de Conatus começa a ser exposta nas props. 4,5,6 e 7 da parte III da Ética.


teoria do conatus: “se funda toda a teoria da afetividade, bem como a ética e a teoria política de Espinosa” - M. Gleizer


“Vimos que as essências de todas as coisas finitas participam do dinamismo causal da substância divina produzindo efeitos em conformidade com seu grau de potência. Isto significa que todas as coisas são dotadas de uma potência de agir” - M. Gleizer


“Segue-se da tese da inteligibilidade integral do real que, assim como a definição genética da essência de uma coisa qualquer não pode envolver nenhuma contradição interna, também os efeitos que se seguem exclusivamente da essência desta coisa não podem jamais conduzir à sua destruição” - M. Gleizer


Relacionamento entre Conatus e Paixões, através do “Espinoza e a Afetividade humana”


“Com efeito, segundo a doutrina do conatus, nada do que se explica apenas pela natureza de uma determinada coisa pode conduzir à sua destruição ou diminuição. Logo, não pode conduzir à tristeza. Dessa forma, toda a afetividade ativa será caracterizada pela positividade e alegria. Já os afetos passionais, por dependerem do concurso de coisas exteriores a nós, poderão ser alegres ou tristes em função da compatibilidade ou não entre essas coisas e nós” p. 39





“Causa adequada ou inadequada, atividade ou passividade, remetem portanto à auto-suficiência ou não de um ente finito face aos outros entes finitos na produção e explicação dos seus efeitos. Assim, quando esses efeitos são as afecções que fazem variar a potência, isto é, quando são afetos, eles são denominados ações quando se explicam exclusivamente pelas leis de nossa natureza, e paixões quando sua presença em nós não se explica apenas por nós, mas depende da existência de causas exteriores complementares”


p. 37





“Com efeito, as paixões, ao resultarem naturalmente de nossa interação com causas exteriores sempre variáveis, se caracterizam pela instabilidade e trazem a marca de nossa dependência em relação ao outro, de nossa heteronomia e alienação. Com elas nosso conatus se deixa orientar do exterior pelas afecções que nós sofremos, sendo as paixões eventos que nos ocorrem mas que escapam ao nosso poder, colocando-nos à mercê da fortuna. Por outro lado, as ações, ao resultarem exclusivamente de nossa natureza, se caracterizam pela constância e trazem a marca da autonomia e do exercício plenamente eficaz de nosso conatus. Por isso, é sobre elas que repousará o projeto de liberação e a experiência da beatitude.” p. 39
























Bibliografia





Spinoza, Ética. Tradução Tomaz Tadeu. Autêntica


Spinoza, Ética. Tradução Roberto Brandão.


Spinoza, Ética. Tradução Joaquim Ferreira Gomes. Relógio d’Água


M. Chaui. Espinosa uma Filosofia da Liberdade. Ed. Moderna


M. Gleizer. Espinosa e a Afetividade Humana. Ed. Zahar


L. Teixeira. A doutrina dos modos de percepção e o conceito de abstração na filosofia de Espinoza. Ed. UNESP


M. Chaui. A Nervura do real, vol II. Companhia das Letras

No hay comentarios:

Publicar un comentario