sábado, 26 de mayo de 2018

Como buscas as paixões?

Introdução

Creio que essa curiosidade, sobre o melhor método para investigar as paixões, tenha nascido na mesa de um bar. Quando um amigo, com ar superior, discorria sobre não ter gostado de seu primeiro ano de graduação, no que disse algo como “logo que eu entrei lá, no primeiro semestre, teve um curso inteiro de Spinoza e eu detestei porque acho que é errado falar das paixões daquela forma cartesiana dele”.
Sobrou-me cá pra mim a questão, qual é a melhor forma, ou ao menos, qual seria uma forma adequada de tratarmos as paixões?
Quero dizer, a única forma de tratarmos das paixões é estarmos apaixonados? Ou seja, na forma dos versos de um poeta? Seria o mesmo que dizer que só podemos estudar a loucura internados num manicômio ou a cegueira apenas se não vermos nada - o que é absurdo.
Assim nos questionamos qual é a melhor forma de tratar uma investigação de acordo com um objeto. Devemos questionar-nos antes, o que é este objeto? Ou podemos fixar-nos num método único para encontrar todas as coisas.
Aqui escolhemos o Descartes para guiar a investigação porque este autor tem um celebríssimo texto apenas sobre o método. É dele a frase “melhor caminhar pelo caminho certo do que correr pelo errado”. Começamos por entender seu método, depois sua teoria das paixões para entrar tratar da união de ambos.








O Método em Descartes

Em seu tempo René Descartes cria na unicidade da Ciência. Vendo as todas, apesar de sua diversidade em objetos, como uma estrutura - como é apresentado na imagem da árvore, com suas raízes, tronco e galhos. Nesse sentido, para ele o método que guia essas ciências deve também ser uno, e citando Franklin Leopoldo e Silva:

“Essa ideia significa que a ciência é una, apesar da sua diversidade de objetos. Significa também que, desde os fundamentos até os últimos resultados que deles possam derivar, existe uma unidade que é principalmente proveniente da unidade do espírito que investiga a evidência dos diversos conteúdos. Por isso a ciência não poderá, na sua estrutura básica, progredir, pois o acúmulo de contribuições sucessivas não altera o perfil sistemático do saber. E a razão disso é ainda o método: a unidade do método é determinante da unidade da ciência.”

Em Descartes está claro que enquanto não se tem seguido um método único, o conhecimento não passava de mera opinião. Em seu Discurso ele é muito claro ao citar o caso de Esparta:

“Assim, imaginei que os povos, que, tendo sido outrora semi-selvagens e só pouco a pouco se tendo civilizado, não elaboraram suas leis senão à medida que a incomodidade dos crimes e das querelas a tanto os compeliu, não poderiam ser tão bem policiados como aqueles que, a começar do momento em que se reuniram observaram as constituições de algum prudente legislador. [...] . E, para falar das coisas humanas, creio que, se Esparta foi outrora muito florescente, não o deveu à bondade de cada uma de suas leis em particular, visto que muitas eram bastante alheias e mesmo contrárias aos bons costumes, mas ao fato de que, havendo sido inventadas apenas por um só, tendiam todas ao mesmo fim”

Descartes crê que “um Estado é bem melhor dirigido quando, tendo embora muito poucas [leis, estas] são estritamente cumpridas”. Assim, de maneira clara e sucinta Descartes enuncia seus quatro princípios. Sendo esses:
Clareza e Distinção: “O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida”
Para Franklin:
“A primeira regra supõe duas atitudes daquele que busca a verdade. De um lado, deve evitar a prevenção, isto é, não formular juízos a partir de preconceitos e prejulgamentos ou de opiniões simplesmente recebidas; de outro lado, evitar igualmente a precipitação, ou seja, não efetuar um juízo até que a ligação entre os termos representados apareça com inteira clareza e total distinção”
Análise: “O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las”
Cito:
“A segunda regra pressupõe a anterioridade dos elementos simples sobre as composições. Trata-se de uma ideia tradicional da filosofia, mas Descartes confere a ela um teor matemático, já que a divisão das dificuldade é pensada por ele segundo o modela da decomposição de equações complexas ou da redução de múltiplos aos seus multiplicadores”
Ordem: “O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros”
Cito:
“A terceira regra é a que permitirá a dedução como forma de ampliar o saber. A importância da ordem está em que cada elemento que entra no sistema deve o seu valor à posição que ocupa num determinado conjunto. Por isso o encadeamento é essencial para a demonstração da verdade”
Enumeração: “E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir”
E Franklin:
“Finalmente, o preceito da enumeração pode ser visto, em parte, como síntese, já que percorre em sentido inverso o caminho feito pela análise, numa recuperação da visão da totalidade do conjunto”
“Embora todas as regras possuam igual valor, a primeira se sobressai, tendo em vista que é por meio dela que melhor se nota o caráter de visão intelectual que a verdade tem para Descartes. Uma representação clara e distinta é aquela em que a verdade manifesta-se a um espírito atento a a partir de dois requisitos: primeiramente, a simplicidade ou o caráter elementar da representação; em segundo lugar, a separação de uma dada representação das demais que com ela se poderiam confundir”
O Filósofo diz inspirar-se nas longas cadeias de razões das quais se servem os geômetras, nesse sentido, todos os conhecimentos possíveis aos homens seguiriam-se da mesma forma. Duvidando de verdades que não o sejam, para ele, não haveria nenhuma verdade tão distante ou escondida que fosse impossível de buscar. No Discurso ele afirma:
“Essas longas cadeias de razões , todas simples e fáceis , de que os geômetras costumam servir-se para chegar às suas mais difíceis demonstrações, haviam-me dado ocasião de imaginar que todas as coisas possíveis de cair sob o conhecimento dos homens seguem-se umas às outras da mesma maneira e que, contanto que nos abstenhamos somente de aceitar por verdadeira qualquer que não o seja, e que guardemos sempre a ordem necessária para deduzi-las umas das outras, não pode haver quaisquer tão afastadas a que não se chegue por fim, nem tão ocultas que não se descubram.”
Inclusive ele salienta o papel das matemáticas na busca pela verdade na ciência:
“E não me foi muito penoso procurar por quais devia começar, pois já sabia que haveria de ser pelas mais simples e pelas mais fáceis de conhecer; e, considerando que, entre todos os que precedentemente buscaram a verdade nas ciências, só os matemáticos puderam encontrar algumas demonstrações, isto é, algumas razões certas e evidentes, não duvidei de modo algum que não fosse pelas mesmas que eles examinaram; embora não esperasse disso nenhuma outra utilidade, exceto a de que acostumariam o meu espírito a se alimentar de verdades e a não se contentar com falsas razões”.
Para Descarte, em seu método, o conhecimento sempre é construído pela razão buscando “abstrair todas as condições materiais e psicológicas que poderiam influir no pensamento”. Cito: “A partir daí, é no próprio método que o sujeito visa à representação mas no nível do puro pensamento, e não enquanto sujeito psicológico ou psico-fisiológico”.
Subjetivando este conhecimento: “A verdade é algo a ser procurado no próprio sujeito, na ciência que está nele mesmo”.
Recordo-me como chiste que Nietzsche claramente refere-se a Descartes quando ironicamente refere-se à “ingênuos acostumados à introspecção”, no aforismo 16 de Além do Bem e do Mal: “Ainda há ingênuos acostumados à introspecção que acreditam que existem "certezas imediatas", por exemplo, o "eu penso" ou, como era a crença supersticiosa de Schopenhauer, o “eu quero”; como se nesse caso o conhecimento conseguisse apreender seu objeto pura e simplesmente, enquanto "coisa em si" sem alteração por parte do objeto e do sujeito”.
O método vai de encontro com uma verdade no sujeito, ou seja, uma verdade subjetivada. Não sendo essa verdade subjetiva em si, porém sim, seguindo-se da subjetividade como fundamento da verdade. Cito:
“Se os requisitos metódicos forem cumpridos, a representação não poderá ser colocada em dúvida, e a certeza do sujeito corresponderá à evidência, que é uma visão objetiva da verdade. O método proporciona então o encontro de uma verdade subjetiva, isto é, no sujeito. Essa verdade subjetiva é, no entanto, profundamente diversa da apropriação subjetiva da verdade proposta pela tradição e aceita simplesmente pelo sujeito. Pois foi por via metódica que o filósofo encontrou a verdade enquanto evidência, e o caráter subjetivo que ela agora possui não decorre de condições subjetivas no sentido histórico ou psicológico, e sim da subjetividade como lugar e fundamento da verdade”.

As Paixões em Descartes

Para seguir nossas investigações importante se faz restringir bem o espaço das paixões na investigação de Descartes. Elas alocam-se no seio da filosofia moral, remeto-me novamente à imagem da árvore dada acima. A árvore do conhecimento de Descartes põe a Metafísica como base, simbolizada pelas raízes da árvore. Enquanto a Física é o tronco, enquanto os galhos são as ciências, sendo as principais: mecânica, medicina e moral. E cito o Lívio Teixeira:
“Descarte se refere à mecânica, à medicina e à moral como os galhos da árvore da sabedoria, da qual a metafísica constitui a raiz e a física, o tronco. Aquelas três aplicações práticas dependem do fundamento metafísico e dos conhecimentos técnicos da física. Ora, verificamos, quanto à medicina, que Descartes desenvolveu a sua doutrina começando pelas partes que nela se podiam tratar do ponto de vista puramente mecânico, considerando o corpo do homem como qualquer corpo animal, isto é, como uma máquina. Este desenvolvimento diz respeito só à subtância extensa e seus movimentos. Acabou, porém, introduzindo, com a necessidade de considerar a ação da alma sobre o corpo, elementos que dizem respeito não mais à substância extensa, mas À união substancial da alma e do corpo. Já vimos que este tema não constitui nenhum acréscimo heterogêneo ao sistema cartesiano, mas um desenvolvimento natural do mesmo”.
“Pode-se, pois, concluir que Descartes entendia que os fundamento metafísicos e físicos das ciências aplicadas, representados pelos galhos da árvore, não excluíam de modo algum, antes exigiam, para as ciências referentes ao homem, a consideração dos fenômenos ligados à união substancial da alma e do corpo”.

O que são paixões?

Descartes para seguir sua investigação sobre as paixões da alma traça uma distinção entre ações e paixões. Sendo tais ações todas as nossas vontades, dado que as concebemos como advindo apenas de nossa alma, e não tendo outra explicação se não ela. Enquanto as paixões seriam todos os conhecimentos e percepções que habitam em nós, dado que estes são recebidos de fora da nossa alma - esta distinção parece influenciar significativamente Espinoza (vide corolário da Prop. 1 do Livro III da Ética). E aqui cito o Lívio Teixeira:
“[...] Descartes faz, quanto aos pensamentos, uma distinção de capital importância: há pensamentos que são ações da alma e outros que são as suas paixões. Ações são todas as nossas vontades, porque experimentamos que elas vêm diretamente de nossa alma e parecem não depender senão dela; paixões são todos os conhecimentos e percepções que se acham em nós, pois que todos eles são recebidos das coisas que por elas são representados”.
A partir daí Lívio segue afirmando “De um modo geral as percepções todas são paixões da alma”. Neste momento, inicia-se uma atitude mais analítica do conhecimento das paixões. Estabelecendo assim várias distinções. Diferenciá-se então as percepções que têm a alma como causa - sendo que apesar das vontades estarem no âmbito da ações (já distinguido das paixões) a percepção das vontades permanece no âmbito das paixões da alma. Das percepções que têm o corpo como causa. E a análise se segue da divisão entre 1° as imaginações advindas do andamento imprevisível dos espíritos animais (que explicaremos mais abaixo) 2° E das percepções que seguem-se dos nervos. Sendo elas: a) sensação dos objetos exteriores b) Aquilo que sentimos mas está em nós mesmos (como calor, sede, fome e sono) c) Percepções da alma relacionadas apenas a ela mesma, das quais não se tem nenhuma causa próxima, ex. entusiasmo, raiva, etc. Sendo que normalmente se considera apenas estas últimas como paixões propriamente ditas, citando:
“Falando de um modo geral, estas três sortes de percepções são paixões da alma, pelo fato de serem percepções; mas costuma-se restringir o nome de paixão somente as percepções da última classe, isto é, as que tendo como causa o corpo, ou melhor, o movimento dos espíritos através dos nervos, não são nem percepções das coisas do mundo exterior, nem dos estados do nosso corpo,  mas “ que se relacionam com a nossa alma”, isto é, que são percepções de estados de nossa alma”.
Com esta análise de todos os modos de percepção e o lugar próprio das paixões. Defini-se as paixões como “percepções, sentimentos ou emoções da alma relacionadas particularmente a ela e que são causadas, mantidas e fortificadas pelos movimentos dos espíritos animais”.
Os espíritos animais

Os espíritos animais são definidos por Descartes no art. VII da primeira parte das Paixões da Alma, diz-se “Por fim, sabemos que todos esses movimentos dos músculos, como também todos os sentidos, dependem dos nervos, que são como pequenos filetes ou pequenos tubos que provêm todos do cérebro e, assim como ele, contêm um certo ar ou vento muito sutil, a que se dá o nome de espíritos animais”. É curioso como ele define os espíritos como como “ar ou vento” sutil. Aparentemente no passado eles tinham uma sanha pneumática que é muito semelhante à elétrica em nossa época. Tanto como nós gostamos de usar “elétrico”, “energia” e “força” no passado muito de explicava com ar, vento e sopro - inclusive a própria alma - como se no passado a cabeça das pessoas fosse dominada pela mecânica e hoje somos frutos do eletromagnetismo.

Como se produzem no cérebro os Espíritos Animais

Segundo Descartes os espíritos animais são as partes mais agitadas e mais sutis que compõe o sangue. Para o autor, como o sangue tende a ir para o cérebro, apenas estas partes, que são mais sutis, conseguem adentrar as cavidades. Estes espíritos, ágeis que são, saem do cérebro através de seus poros. A partir de então os espíritos conduzem-se aos nervos e partem em direção aos músculos onde realizam suas funções de mover o corpo de diferentes formas. No texto de Descartes:
“Porém o que é mais importante considerar aqui é que todas as mais vivas e mais sutis partes do sangue, que o calor rarefez no coração, entram sem cessar e em grande quantidade nas cavidades do cérebro. E a razão que as faz dirigirem para ele em vez de qualquer outro lugar é que todo sangue que sai do coração pela grande artéria encaminha-se em linha reta para aquele lugar e que, não podendo entrar todo, porque há somente passagens muito estreitas, passam apenas aquelas suas partes que são mais agitadas e mais sutis, enquanto o restante se espalha por todos os outros locais do corpo. Ora, essas partes muito sutis do sangue compõe os espíritos animais. E para esse fim elas não precisam receber qualquer outra mudança no cérebro, exceto que nele são separadas das outras partes menos sutis do sangue. Pois o que aqui denomino espírito são apenas corpos, e não têm outra propriedade além de serem corpos muito pequenos e que se movem muito depressa, assim como as partes da chama que sai de uma tocha, de tal forma que eles não se detêm em lugar algum; e à medida que alguns entram nas cavidades do cérebro, também alguns outros saem dele pelos poros que existem em sua substância, poros esses que os conduzem para os nervos e dali para os músculos, por meio dos que eles movem o corpo de todas as diferentes formas que este pode ser movido”.

Ordem e enumeração

Como expomos anteriormente após a análise segue-se a ordem e a enumeração das paixões. E com isso para definir o critérios de ordenação das paixões citamos Teixeira (p. 182):
Descartes não visa “uma dedução científica, mas somente a uma explicação das paixões. É necessário achar um critério que nos permita pôr alguma ordem na massa confusa dos fenômenos que têm lugar no plano da união substancial. Com isso poderemos enumerar as paixões [..] verificar se há algumas que são fundamentais, e de que modo as outras se ligam a estas. Esse critério não pode ser, é claro, uma ideia rigorosamente deduzida e aplicada de acordo com as regras do método. Ele não deixa, porém, de ser o resultado de um certo número de conhecimentos que encontramos na metafísica da substância [...] a) a natureza humana é uma união da alma e corpo; b) que esta união constitui um plano de ideias confusas; c) que estas ideias, aspecto representativo dos estados corporais em nossa mente, dizem respeito ao que nos pode aproveitar ou prejudicar, isto é, ao fato de sentirmos as coisas como boas ou más para nós; d) que a utilidade das paixões consiste, por um lado, em que elas dispõem a alma a querer o que a natureza mostra que nos é útil e a persistir nesse querer; por outro lado, o mesmo movimento dos espíritos que produz em nossa alma essas disposições, produzem em nosso corpo os movimentos que servem para a execução deles. Juntando a essas noções as modificações que sofrem em nós o sentimento do nosso interesse, segundo é visto no passado, no presente, ou no futuro, bem como aquelas que vêm do fato de considerarmos os bens e os males não só em relação a nós, mas aos outros e, ainda, o que podemos chamar de intensidade das paixões, teremos os elementos necessários para essa enumeração e explicação da paixões” (grifos meus)















Conclusão

O próprio Descartes inicia o texto dizendo que “Não há nada que nos mostre melhor as defeituosas ciências que recebemos dos antigos do que o que eles escreveram sobre as paixões. [...] Embora ela não pareça ser das mais difíceis, porque, cada qual sentindo-as em si mesmo, não e tem necessidade de adotar alhures qualquer observação para descobrir sua natureza, no entanto, o que os antigos ensinaram a seu respeito é tão pouca coisa, e na maioria tão pouco digna de crédito, que não posso ver a menor esperança de aproximar-me da verdade a não ser me afastando dos caminhos que eles seguiram”.
A ausência (ou falta de qualidade) desse tema é fácil de explicar através do texto da M. Chauí: segundo “Aristóteles, só há ciência do necessário, do que é sempre idêntico a si mesmo. A ciência [..] exige a estabilidade do objeto, sendo por isso incompatível com o movimento incessante das coisas e do pensamento, isto é, com a contingência inscrita na natureza das coisas e do homem”. “Contingente é o que muda de maneira inesperada e imprevisível e até contrária a si mesmo; é o que pode acontecer tanto como não acontecer; é o que poderia ser de outra maneira”. E claramente neste sentido as paixões estão no âmbito do contingente, pois claramente as paixões humanas são uma roda da fortuna na qual uma hora se está em cima e outra está se em baixo.
No Discurso Descartes contrasta as bases poucos sólidas “Escritos dos antigos pagãos constituíam palácios apenas sobre areia e lama” com a matemática e seus sólidos e firmes fundamentos “Espantava-me de que, sendo tão firmes e sólidos os seus fundamentos, nada de mais elevado se tivesse construído sobre eles” - dando um bom gancho para outros, como Spinoza, que irão demonstrar seu sistema segundo a ordem dos geômetras.
Assim, nossa questão aqui é o que seria um bom método ou ao menos adequado de investigar as paixões. E nessa toada temos Descartes, que afirma que não quer “explicar as paixões enquanto orador, nem mesmo como filósofo moral, mas somente enquanto físico”.
Neste trabalho o nosso intuito foi confrontar o Discurso e as Paixões para ver como se relacionam seu método na sua investigação sobre as paixões.
Para nós, tendo Descartes como um pensador que subjetiva a busca pela verdade a certeza de suas investigações na clara evidência de sua busca interna através da certeza do Cogito. Ele não poderia deixar de tratar de um tema como o das paixões, dado que estas são o objeto natural de quem observa-se a si mesmo e está atento aos movimentos da própria intimidade. Como o próprio afirma que a questão “não pareça ser das mais difíceis, porque, cada qual sentindo-as em si mesmo”.






Bibliografia

Descartes, René. Discurso do Método, col. Os Pensadores. Ed. Abril
As paixões da alma. Ed. Martins Fontes
Descartes a metafísica da modernidade: Franklin Leopoldo e Silva. Ed. Moderna
Ensaio sobre a moral de Descartes – Lívio Teixeira. Ed. Brasiliense
Espinosa uma Filosofia da Liberdade – M. Chaui. Ed. Moderna

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